Desde o dia que eu assisti ao filme Procurando Nemo, não bato mais nos vidros dos aquários. Eu tinha essa mania terrível. Todas as vezes que me sento nessa cadeira no consultório do Dr. Abreu eu penso nisso. Na ocasião, quando assisti ao filme, eu ainda morava na casa da Adalgiza. Giza não era bonita de rosto, o corpo também não era perfeito como de muitas gostosas que a gente vê na TV e nas revistas. Revistas que não têm aqui no consultório do Abreu. Giza tinha uma cicatriz da operação que fez de apêndice quando era mais jovem. Nunca me esqueci da cicatriz pois todas as vezes que eu chupava a moça meu rosto sempre se deparava com a marca da incisão cirúrgica. Ainda me lembro do dia que ela chegou com aquele DVD e me obrigou a assistir. Dizia ela que casais, que assistiam a filmes como aqueles, seriam bons pais. O que um homem não faz por uma mulher.
O Dr. Abreu sempre demora cerca de 40 minutos para que eu seja consultado. Nessa manhã foi diferente, esperei somente 10 minutos. Creio que se demorasse mais que isso, acabaria sentindo saudades de Giza e a procuraria novamente. Por sorte isso não aconteceu.
"De acordo com seus exames, me parece tudo bem. Não vejo mais nenhuma pedra."
Eu tenho pedras nos rins. Não é um problema grave. Não desejo para nenhum homem a dor cortante que senti ao expelir aquela maldita pedra pela minha uretra. Eu podia segurar o meu pau com a força que fosse que a dor não acabava. Uma navalha que me cortava o pau do saco até a glande.
"Graças ao bom Deus."
Nunca acreditei no poder de expressões clichês, muito menos das religiosas. Dr. Abreu nunca foi de muita conversa. Dessa vez me recomendou que sempre bebesse muito líquido e mantivesse atividades sexuais com regularidade. Mas com quem?
Já não sentia tesão por quase ninguém. "Aquela puta da Giza !"
"Precisamos nos encontrar, onde eu te acho?"
"Pode ser no meu apartamento?"
"Combinado!"
Fazia anos que não estávamos mais juntos, aquele caminho me pareceu familiar, mesmo com novos prédios e novos carros. Caminhei pela areia da praia, queria tentar me lembrar do tempo em que achávamos a rua de Giza pelo tamanho que conseguíamos enxergar o MAC.
"Icaraí pode ter a praia poluída, mas tem a visão mais linda de Niterói."
"Qual o tamanho do MAC? Uma laranja é o tamanho certo?"
"Não, um abacate."
Peguei-me sorrindo relembrando o tamanho do abacate que ela fazia com as mãos. E não é que ainda dava certo. Rua Lopes Trovão. Estou tão perto.
O porteiro ainda é o mesmo. Se lembrou de mim, abriu o portão sem questionar-me nada. Nunca nos falamos.
"Estava organizando minhas coisas para a mudança. Queria me despedir de você. Queria que fosse aqui."
"Vai pra onde?"
"Nice, na França."
Fiquei em silêncio. Na verdade eu não queria saber a razão. Não queria correr o risco de saber que ela tinha outro e que era uma viagem de amor. Eu andava tão fodido na vida, que nem imaginação para inventar uma felicidade invejável eu teria o suficiente.
Giza caminhou até a cozinha, falava qualquer coisa que eu não atentei, deixei-me levar por instantes pelo movimento que seu quadril fazia enquanto andava. Aquele tempo fez bem à ela.
"Você ainda tem aquela marquinha? Aquela da operação?"
Levantou uma parte da blusa. Pude ver a cicatriz. Não me contive. Ela sabia que aquilo aconteceria novamente. Casais que um dia estiveram juntos sempre sentem essa atração quando se reencontram em determinadas circunstâncias, é claro. Aquele gosto de fel me deixou com muito tesão. Gostava de segurá-la pelos quadris e levantá-la pra que não conseguisse colocar os pés no chão. Investi mil vezes, parecia que nunca era o bastante.
"Essa caixa é sua, quero que fique com você."
Foram as últimas palavras que escutei de Giza. Cruzando a Tavares de Macedo, deixei Icaraí pra não mais voltar. Ao abrir a caixa de papelão, com a marca piraquê meio apagada, uma cueca, duas blusas e o DVD. Assisti mais uma vez ao filme e decidi que nunca mais bateria nos vidros dos aquários.
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