Quando não faço ao que me pedem, costumo refletir sobre a vida. Tia Bernadete costumava dizer que eu não teria futuro. Ela pensava que eu não dava pra nada, só pelo fato de eu ser franzino.
Hoje me sentei num banco diferente da pracinha. O que eu costumava sentar estava ocupado por um casal, de idosos, que se beijava. Confesso que no inicio senti um certo nojo, mas ao pensar momentos depois da repulsa, percebi que, quando estiver velho, ainda me sentirei como eu me sinto hoje e não terei nojo de beijar ninguém. Logo o asco passou.
Desse banco, tinha uma visão melhor da quitanda do Alberto. Hoje ela vestia o meu vestido favorito, um florido, meio rosa. Decidi, me sentarei sempre nesse banco.
Existia algo diferente em mim, não sabia bem o que era. Desde a semana passada eu não parava de pensar na mulher do Alberto. Aquele velho, o dono da quitanda, tinha uma cara de escroto. Às vezes me pergunto como ele consegue manter a clientela com tantas grosserias. E o que é mais intrigante, como aquela moça, linda, suporta estar ao lado dele.
Tia Bernadete me disse que depois que servi ao exército, encorpei, mas que ainda sim, não servia pra nada. Acho que meu destino era cuidar da minha tia. Ela sentia muitas dores na coluna e precisava muito de mim.
Ainda daquele banco, observei a mulher do Alberto o dia todo. Acho que ele já percebeu. Não me importo. Dali eu vi o movimento do dia na quitanda, a tarde passou e a noite chegou. Era dia de jogo e o Alberto era palmeirense doente. Ele quis fechar a quitanda mais cedo, mas pelo que percebi, a mulher insistiu para que ele deixasse com ela. Senti-me viril no instante que ele entrou no opala amarelo e sumiu. Tomei coragem e fui comprar cigarros.
"Mocinho, não vendemos cigarros aqui."
De onde eu tirei a idéia dos cigarros? Que imbecil. Por sorte as calças eram largas. Ela não podia perceber minha reação ao sentir o cheiro e ao ouvir a sua voz.
"Na padaria você encontra."
Na padaria resolvi que seria naquela noite.
"Uma dose!"
Tomei mais 4 doses, me sentia confiante. Arrancar a blusa da mulher do Alberto era a única coisa que eu me imaginava fazendo, mas teria de agir com rapidez. Esperei até que ela começasse a baixar as portas da quitanda, quando a segurei firme pela cintura e a empurrei pra dentro do balcão. Com o pé, terminei de baixar a porta. Evitei olhar nos olhos dela para não me arrepender e num só golpe, arranquei sua blusa. A mulher do Alberto não parecia assustada. Ela me queria também.
"Você está fedendo. A mulher e a álcool."
Tia Bernadete sabia das coisas.
Ótimo!! Divertido e inteligente.
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